O dia sem esperança


Hoje acordei e o despertador não tocou. Minhas gatas não miaram e eu não liguei a televisão para ouvir as primeiras notícias do dia. O dia não havia amanhecido direito, um tom arroxeado iluminava meu banho, já que não parei nem para ascender a luz do banheiro. Meu xampu Victoria’s Secret que outrora perfumava a casa, não tinha o menor odor. Nem os sabonetes de maracujá que ganhei de minha mãe. Meu creme para pele de morango estava sem cheiro e meu guarda-roupas, cheio de vestes sem cor. Coloquei qualquer coisa, tanto faria o que escolhesse. Não me maquiei e não penteei meus longos cabelos.

 Fui para o trabalho. Não acelerei, não escutei musica, não liguei o ar condicionado, não parei no sinal vermelho, não vi nem como cheguei e quiçá onde estacionei. Não houve trabalho, não existiram ligações, não teve cliente mal criado, tampouco chefe irritado. Não conversei com as amigas, não teve animo e nem assunto. O desjejum com meu Danone de frutas estava insosso. Não comi nada até o almoço, que uma sopa sem gosto e de textura estranha.

 De tarde não teve ligação para minha mãe, que está do outro lado do hemisfério. Não houve filme, não existiu seção da tarde. Deitei em minha cama, que não estava fofa como de costume e cobri minha cabeça. Queria que anoitecesse logo, queria que tudo isso acabasse. Embora tenha falado com você, a conversa soou estranha. Não queria que tudo isso acabasse, não queria que meu coração te deixasse.

 Não teve janta, não teve amiga, não teve nada. Só queria ficar encolhidinha, escondida, com minhas coisinhas. O único momento de sentimento que tive no dia foi quando uma lagrima quente percorreu todo meu rosto. Tudo isso acontece quando não tenho esperanças em você. Saudades do que não conheço, dos beijos que não recebi, dos cheiros que não senti, no abraço que não dei e do amor que não vivi.

Sobre Debora Wolf

Debora Wolf é formada em moda, pós-graduada em design gráfico e tem duas gatinhas a Kessy e a Ana Magali. Mora em Santana de Parnaíba, mas já morou em Florianópolis, gosta de ler escritores russos e indianos, estuda inglês e deseja morar noutro lugar. Vive mudando de opinião, já foi punk, hippie, punk de novo (e fez uma tatuagem punk rock), capoeirista, nadadora, surfista quando criança achou que seria bailarina, na adolescência tirou algumas fotos como modelo, mas descobriu ser muito tímida para posar. Hoje em dia sonha em ficar para sempre com seu namorado. Ama viajar, mas não gosta de comer nas viagens porque é vegetariana e sempre desconfia da higiene dos restaurantes. Tem mania de escovar os dentes e passar filtro solar. Quando tem um tempo livre escreve para o blog, sempre imaginou que seus principais leitores seriam os seus amigos, mas hoje em dia recebe gente que nunca pensou que conheceria.
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3 respostas para O dia sem esperança

  1. Ana Claudia Santos disse:

    =(

    Espero que logo logo esteja tudo voltando a ter cor, cheiro, sabor, textura e som!

    Beijos,
    Ana

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