Zero.


As vezes gostaria de começar do zero, como se nem nos conhecêssemos, como uma página em branca de um caderno. Gostaria de jogar fora os medos, as incertezas e o pranto. Gostaria que nunca tivesse me sentido ferida, magoada e até desamparada. Gostaria de não tê-lo perturbado a mente e ter te deixado dormir sossegado naquela noite cálida, mas ainda invernal. Gostaria de voltar atrás e ter tentado ser ao menos mais serena e tolerante. No entanto, se apagássemos nossa memória, como em Brilho eterno de uma mente sem lembranças aniquilaria as recordações mais tênues que nossos corações conseguem rememorar. Esqueceria como me sinto acalentada quando me abraça e me cobre quase por inteiro. Também não ia me recordar de sua emoção a primeira vez que disse que me amava. Foi tão de repente, docilmente de repente, que quase tirou meu ar. Eu ia esquecer que eu queria ter ficado naquele momento o resto de minha vida. Também não iria lembrar de como que você sempre faz questão de me apanhar pela mão e como me sinto feliz e segura com isso. Daí ia perder inclusive aquela noite sob a lareira, ou quando nos lambuzamos de fundae em Campos de Jordão. Ia apagar da memória todos os nossos reencontros na rodoviária, quando eu te buscava e desejava te sequestrar pra sempre. No entanto, confesso que a ambicionaria tirar de minha mente os momentos de dor, na mesma rodoviária, quando o entrego para o adeus. Deixava desaparecer aquele sentimento de desamparo e desespero quando não sei quando será a próxima vez. Mas eu não quero esquecer o seu cheiro, o seu beijo e o seu gosto. Eu não quero, em definitivo, apagar as boas lembranças, que graças ao bom Deus são maiores do que as ruins. Eu só quero ficar com você para sempre, para falar a verdade.

Sobre Debora Wolf

Debora Wolf é formada em moda, pós-graduada em design gráfico e tem duas gatinhas a Kessy e a Ana Magali. Mora em Santana de Parnaíba, mas já morou em Florianópolis, gosta de ler escritores russos e indianos, estuda inglês e deseja morar noutro lugar. Vive mudando de opinião, já foi punk, hippie, punk de novo (e fez uma tatuagem punk rock), capoeirista, nadadora, surfista quando criança achou que seria bailarina, na adolescência tirou algumas fotos como modelo, mas descobriu ser muito tímida para posar. Hoje em dia sonha em ficar para sempre com seu namorado. Ama viajar, mas não gosta de comer nas viagens porque é vegetariana e sempre desconfia da higiene dos restaurantes. Tem mania de escovar os dentes e passar filtro solar. Quando tem um tempo livre escreve para o blog, sempre imaginou que seus principais leitores seriam os seus amigos, mas hoje em dia recebe gente que nunca pensou que conheceria.
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